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Huambo, Corredor do Lobito e Roterdão: Rota oficial do Abacate Angolano até a Europa

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Nos últimos anos, o Corredor do Lobito – a ferrovia e via marítima que liga Angola à região mineira do Congo e Zâmbia – emergiu como plataforma-chave para escoar o abacate angolano à Europa, sobretudo aos Países Baixos. O abacate cultivado no planalto central (Huambo) atrai investidores europeus que planeiam exportá-lo via Corredor do Lobito. Conforme afirmam diplomatas neerlandeses, o produto seguirá do Porto do Lobito até Roterdão (a segunda maior cidade dos Países Baixos e um dos portos mais importantes do mundo). Uma clara evidência da importância desta rota atlântica para o comércio internacional.

Embora ainda em desenvolvimento, o cultivo de abacate no Huambo começa a expandir-se. A província responde por quase toda a produção nacional (c. 48.600 toneladas em 2023), e surgem já consórcios internacionais para dinamizar a cadeia de valor.

Os investimentos e parcerias lançadas em 2023–2025 são decisivos. Destacam-se: a concessão ferroviária dada em 2023 ao consórcio Lobito Atlantic Railway (LAR) – formado pela Trafigura (49,5%), Mota-Engil (49,5%) e Vecturis (1%) – para gerir o Corredor por 30 anos; a promessa norte-americana de disponibilizar US$ 1.000 milhões iniciais para a sua construção; e o apoio da UE (plataforma Global Gateway) e da Itália (plano Mattei) para infraestruturas ao longo da rota. No domínio agrícola, a agência reguladora ARCCLA firmou em 2024 acordos com a Associação Agropecuária de Angola (AAPA), com a empresa alemã Westfalia e a neerlandesa Flying Swans para impulsionar as exportações de abacate via a Plataforma Logística da Caála (Huambo). Em Novembro de 2024 foi ainda lançado, com financiamento de 1,1 M€ da Embaixada dos Países Baixos, o primeiro Cluster Nacional do Abacate – um consórcio de três fazendas âncora (MMM, Mungo, EDM) que dará suporte técnico e financeiro aos agricultores locais. Como resultado, o Governo e a Embaixada do Reino Unido dos Países Baixos colaboram para construir infraestruturas logísticas e atender exigências fitossanitárias internacionais, ao adaptar os rótulos e os certificados exigidos.

Infraestruturas e capacidade logística

O Corredor do Lobito apoia-se hoje numa infraestrutura renovada e dimensionada para grande volume. O trecho ferroviário angolano (Lobito–Luau) foi reabilitado por obra chinesa (2015) e, sob a concessão LAR (Lobito Atlantic Railway), prevê-se investir mais de USD 400 Milhões para sua exploração. São 1.289 km de via-férrea (capacidade 22 toneladas/eixo, 50 comboios/dia), além de uma malha de estradas secundárias na RDC e Zâmbia. No porto do Lobito (águas profundas), funcionam seis terminais; o principal, Terminal Polivalente (concessionado à Anglolobito Terminal), com investimento global de USD 200 Milhões, movimenta anualmente a cerca de 3,6 milhões de toneladas (10% do comércio marítimo nacional). Em 2022 o porto recebeu 372 navios e movimentou 1,5 milhão de toneladas diversas. Vale notar que hoje usa-se somente 25 mil TEU/ano desse terminal – somente 10% da sua capacidade de 250 mil TEU – indicando larga margem para expansão futura.

Paralelamente, avança-se nas plataformas logísticas internas. A Plataforma da Caála (Huambo) será um centro frigorífico de referência para o abacate: suas obras básicas iniciaram em 2024 e devem incluir instalações de frio para recepção e armazenamento da fruta produzida no Planalto Central. Este projecto faz parte da Rede Nacional de Plataformas de Logística (RNPL) – coordenada pela ARCCLA – que cobre Caála, Arimba (Malanje), Luvo (Uíge) e Luau (Moxico). Em suma, a logística multimodal do corredor, que liga o campo (Huambo/Caála) ao porto, revela-se robusta: a ferrovia leva o fruto à costa em aproximadamente meio dia, e a partir do Lobito a navegação até Roterdão dura cerca de 24 dias.

Vantagens comparativas do Corredor do Lobito

O Corredor do Lobito desponta como uma rota competitiva face a alternativas africanas. São cerca de 1.300 km de ligação transcontinental (Angola–RDC–Zâmbia), que conectam o “Copperbelt” ao Atlântico pelo Lobito em vez de opções pelo Índico (por exemplo Dar es Salaam, Tanzânia) ou pelo Atlântico via Namíbia (Walvis Bay). De facto, analistas apontam o Lobito como "alternativa estratégica" aos portos de Dar es Salaam e Durban (África do Sul): o Corredor do Lobito reduz tempo e custo de transporte de minerais (cobre, cobalto, terras raras) do interior rumo aos mercados internacionais. Por ligar directamente uma região rica em recursos estratégicos ao Oceano Atlântico, o Lobito abre um “caminho para milhares de novas oportunidades económicas” – citando a Câmara de Comércio Americana – e favorece a emergência de indústria local ao longo da rota. Além disso, ao apoiar agroindústrias no interior (como o abacate), o corredor impacta positivamente o transporte, a energia limpa e as cadeias de abastecimento regional. O financiamento de países do G7 (EUA, UE, Japão, Itália, etc.) destaca a importância geopolítica do Corredor do Lobito como meio de diversificar face à influência chinesa na região.

Impacto económico local e regional

O desenvolvimento do abacate no Huambo promete efeitos económicos significativos na região do Minho do Huambo. A província já lidera a produção nacional (c. 48,6 mil t em 2023), aproveitando clima, altitude e irrigação favoráveis no Planalto Central. A criação do Cluster do Abacate e das plataformas logísticas integra pequenos agricultores no mercado exportador e gera empregos directos e indirectos (nas fazendas, logística de frio, transporte) e capacitação técnica. Como nota Chris Masters, um dos gestores do cluster, "foram investidas altas somas em dinheiro… num projecto que vai transformar toda a região do ponto de vista económico". A proximidade ferroviária (Caála-Lobito) facilita o escoamento rápido, enquanto a abertura do mercado europeu amplia a renda dos produtores. A médio prazo, o Governo angolano espera que o abacate se torne fonte significativa de divisas, contribua para a diversificação económica e aproveite o vasto potencial agrícola nacional.

Mercado neerlandês e estratégias de posicionamento

Os Países Baixos são alvo preferencial: O maior hub europeu de abacate, que importa mais de metade do abacate consumido no continente. O país não produz abacate, mas reexporta volumes enormes para Alemanha, França e Escandinávia. O mercado holandês aprecia variedades consagradas (como Hass e Fuerte), embalagens diferenciadas (abacates cortados e embalados previamente, mini-porções para amadurecer em casa) e valoriza cadeias sustentáveis. As exigências de entrada são rigorosas: rótulos claros e controle rígido de resíduos de pesticidas são obrigatórios. Por isso, a estratégia angolana tem foco em alinhar-se a esses padrões. Os investimentos neerlandeses no cluster (com €1,1 Milhões para as fazendas âncoras) incluem apoio técnico para certificações fitossanitárias e de qualidade internacional. Paralelamente, o país oferece um sector logístico dinâmico: empresas holandesas especializam-se em amadurecer e distribuir o fruto em toda a Europa. Em termos de preço, um quilo de abacate importado custa em média 3–4 € na Holanda, reflexo de um mercado de alto valor.

Em suma, o Corredor do Lobito consolida-se não só como via de escoamento de minérios, mas também como ponte comercial promissora para produtos agrícolas angolanos. A prioridade logística dada ao abacate – via plataformas de frio, cluster de produtores e parcerias internacionais – reforça a posição de Angola no mercado europeu de frutas exóticas, com os Países Baixos a ocuparem o lugar central na distribuição e consumo finais.

 

Fontes:  rna.ao, verangola.net, angolaviva.com, arccla.gov.ao, mintrans.gov.ao, mintrans.gov.ao, expansao.co.ao, expansao.co.ao, economiaemercado.com, arccla.gov.ao, ciam.gov.ao, oeconomico.com, tridge.com

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