José Macedo aponta entraves estruturais, financeiros e formativos que limitam o potencial exportador do país, defendendo medidas urgentes para transformar o campo num motor económico.
Angola não "exporta mais" porque não "produz mais"
O empresário agrícola José Macedo afirmou que Angola não exporta mais produtos agrícolas porque não produz mais, ao enfatizar que o problema central não está nas políticas de exportação, mas sim na baixa produtividade e na ausência de estrutura agrícola sólida. Em entrevista ao jornal Expansão, Macedo destacou que o país possui um potencial agrário vasto, mas a capacidade produtiva e organizacional ainda é limitada, impedindo Angola de competir no mercado internacional.
Produção insuficiente e falta de escala
Segundo Macedo, as empresas agrícolas nacionais ainda operam em pequena escala, com baixo acesso a financiamento, tecnologia deficiente e infraestruturas precárias. Estes factores tornam impossível cumprir as exigências de quantidade, qualidade e consistência que o comércio internacional impõe.
Relatórios do Banco Mundial (2024) e do MINAGRIF (2023) confirmam que mais de 70% das explorações agrícolas em Angola são familiares e produzem essencialmente para autoconsumo, com baixa mecanização e reduzido acesso à irrigação.
Em contraste, a nossa vizinha Namíbia tem investido em "clusters agrícolas" e certificação internacional, permitindo-lhe aumentar as exportações de carne, milho e hortícolas em mais de 40% nos últimos cinco anos, segundo dados do Namibia Agronomic Board, 2024.
Entraves logísticos e falta de certificação
Macedo apontou também que os custos logísticos e a ausência de certificações internacionais são barreiras sérias à exportação. O país ainda depende fortemente de portos e estradas degradadas, o que encarece o transporte e reduz a competitividade dos produtos nacionais.
Segundo o Relatório de Competitividade Global 2024, Angola ocupa a posição 126 entre 143 países em qualidade logística. Além disso, menos de 3% dos produtores nacionais possuem certificação fitossanitária reconhecida pela Organização Mundial do Comércio (OMC) ou pela FAO, o que inviabiliza o acesso a mercados exigentes como a União Europeia.
Formação e conhecimento técnico: o elo esquecido
Outro ponto sublinhado por Macedo foi a falta de conhecimento técnico especializado. “Há um fosso entre os agricultores e o mercado internacional. Produz-se sem saber o que o mercado quer”, declarou.
Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE, 2024) mostram que somente 12% dos agricultores angolanos receberam formação técnica nos últimos cinco anos.
Soluções estruturais: investir no campo, formar e certificar
Para José Macedo, a chave para desbloquear o potencial exportador angolano está na formação, certificação e cooperação regional. Ele defende a criação de polos agrícolas regionais com centros de formação técnica e laboratórios de certificação, capazes de preparar os produtores para as exigências do comércio internacional.
A FAO e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) têm reforçado esta visão. Em 2024, o BAD financiou 75 milhões USD para projectos de valorização de cadeias agrícolas no Corredor do Lobito, destacando que a formação e certificação são os pilares da competitividade.
Caminho para o futuro
O discurso de José Macedo ecoa o de vários analistas internacionais que defendem uma transição estratégica da agricultura de subsistência para uma agricultura comercial competitiva. Sem essa viragem, Angola continuará a depender das importações e a perder oportunidades num mercado regional cada vez mais integrado.
Como conclui o empresário, “não exportamos mais porque não produzimos mais. Mas o problema não é falta de vontade — é falta de estrutura”.
10 de Outubro de 2025