A Arquivo de Notícias

Associação Agro-pecuária defende estratégia para aumentar a produção

O presidente da Associação Agro-pecuária de Angola (AAPA), Wanderley Ribeiro, defendeu a busca de soluções para que os produtores nacionais vendam os seus produtos da cesta básica com menor dificuldade, em virtude do crescimento de produção de bens alimentares, com destaque para o trigo em cerca de 40 por cento, leite 54 por cento, o frango 80 por cento e o arroz que também teve um aumento expressivo.

O líder da AAPA prestou estas declarações durante a mesa-redonda da V Conferência E&M Sobre a Agricultura, promovida pela Revista Economia & Mercado, sob o lema "A Agro-Indústria,  a REA e as Razões por que Continuamos a Depender de Importações”, dando conta de que a associação que dirige representa 80 por cento das empresas que produzem em áreas superiores a 1500 hectares.

Estes dados, na visão do responsável, são uma evidência de que há um esforço importante a acontecer no aumento da produção nacional, em que "os tractores e as ceifeiras estão a concorrer com os navios e com os aviões”. Estão a competir porque o processo de importação, na nossa perspectiva, "não está a levar em consideração aquilo que está a ser produzido aqui no país”.

Wanderley Ribeiro revelou que a associação recebe, com muita frequência, queixas de produtores com alguma escala e que não conseguem vender os seus produtos porque o custo daquilo que é produzido em Angola é elevado por estar atrelado à importação da maioria dos factores de produção, desde a mão-de-obra qualificada,  aos equipamentos, insumos, entre outros.

"Não há possibilidade de fazer com que a produção nacional seja disponibilizada no mercado a um preço mais baixo, na medida em que há um processo de transição”.

"Devemos trabalhar em conjunto no sentido de aumentar a produção nacional. A AAPA representa cerca de 80 por cento das empresas que produzem acima de 1500 hectares, isto é, estamos a falar dos maiores produtores em termos de área do país, mas há este desafio de concertação entre a produção ter o seu lugar reservado, ou seja, garantia de mercado”, disse.

"O país, ainda, precisa de importar grande parte do que consome, mas considera indispensável uma estratégia bem delineada, de modo que e as importações sirvam de complementaridade daquilo que a produção nacional não consegue satisfazer”, defendeu o responsável associativo.

Sector da indústria é preponderante

O director do GEPE do Minagrip considerou a indústria como um outro factor preponderante por estar no início e no fim da cadeia de valor, sendo a actividade vocacionada para garantir os factores de produção, a preços competitivos e nos momentos certos, além de transformar os produtos, o que também exige muito investimento.

"Entendemos que não existe dinheiro suficiente para se materializar este processo de uma só vez, mas é imprescindível arranjar os investimentos necessários para se fazer da forma correcta com os recursos disponíveis”, alertou.

Recordou que Angola hoje já está a exportar banana, hoje não tem registo de importação de mandioca, de batata doce, nem de ananás. No entanto, considera que ainda não é suficiente, mas é um passo positivo que permite aferir quê há parte positiva sobre aquilo que tem vindo a ocorrer.

"Os dados apontam que o volume de dinheiro que Angola gastava com a importação de alimentos diminuiu, tendo saído de 3,5 mil milhões de dólares para 2,3 milhões de dólares quando a população cresceu. Ainda temos falta de alimentos, mas os grandes mercados estão equilibrados”, informou.

Bens locais deviam crescer acima de 5,0 por cento

Anserson Gerónimo, director  da Gabinete de Estudos, Pesquisa e Estatística do Ministério da Agricultura e Florestas, justificou a importação pelo facto de o país, ainda, não produzir o suficiente para responder às necessidades, numa  altura em que a produção apenas cresce 3,5 por cento ao ano e o país tem uma taxa de natalidade de 5,0 por cento.

O economista referiu que caso diminuamos a taxa de mortalidade,  o crescimento demográfico situa-se na ordem dos 4,0 a 4,5 por cento, o que significa que, todos anos, a necessidade alimentar a população vai registar um aumento entre quatro e cinco por cento.

Para o responsável, o crescimento da produção nacional ideal, no mínimo, seria de 6,0 por cento, caso não haja o fenómeno da estiagem.

"O problema é conhecido e o que temos de fazer é aumentar a nossa produção nacional. Hoje, pode-se dizer que existem, em Angola, vários estratos que comprovam ser possível fazer isso, como são os exemplos de unidades produtivas familiares e empresariais que têm estado a produzir com alguma qualidade em todo o território nacional, mas que, ainda assim, não é suficiente. É necessário trabalhar mais e fazer o acompanhamento da actividade desses produtores”, apontou.

César Augusto Lopes da Cruz faz analogia com "uma receita que não pode ser feita sem os ingredientes” para justificar a necessidade  de  maiores investimento no sector.

"Temos que criar condições de investir fortemente na agricultura de forma estratificada, desde o investimento público, investimento privado nacional e estrangeiro, mas acima de tudo criar condições para que o investimento seja suportado por infra-estruturas que cabe ao Estado criar, sem descurar a questão do conhecimento que é transversal a todos nós”, avancou.

Reconheceu que os empresários fazem um esforço muito grande, mas é de opinião que não devem fazer sozinhos, uma vez que as famílias e o  Estado devem fazer, na medida do possível com as escolas de campo, a investigação para continuar a crescer, mas tudo isso carece de investimentos.

Responsável advoga estratificação da produção

César Augusto Lopes da Cruz, director nacional da Indústria,  disse que com o aumento da capacidade produtiva nacional (sector primário), "devíamos estratificar a produção agrícola”, tendo em conta que os registos, ainda na fase colonial, indicam  que Angola não produzia tudo em todas as províncias, uma vez que determinadas regiões tinham melhor aptidão para certas culturas em detrimento de outras.

No dizer do técnico, a tendência actual de se procurar produzir tudo em qualquer região é, muitas vezes, contraproducente, pelo que cada região deveria procurar dedicar-se em produzir aquilo que melhor se adapta às condições locais, no sentido de elevar os níveis de produtividade.

"Ainda temos uma banca muito tímida em questões de financiamento à economia e também temos a questão das seguradoras que desempenham um papel muito importante para o agronegócio, uma vez que se trata de um tipo de actividade que acarreta um certo nível de risco, muitas  vezes incalculável”, advertiu.

Acrescentou que o sector industrial é primordial para qualquer país, principalmente para Angola,  onde a actividade agrícola tem e terá cada vez mais relevância. "Só com a indústria é que conseguiremos estender o prazo de prateleira dos bens que já produzimos, desde os grãos, legumes, a frutas, mas sem investimentos e sem políticas para o efeito, vai ser muito difícil conseguirmos atingir este desiderato”, disse.

Quanto ao facto de Angola ainda verificar uma forte avalanche de importação,  esclareceu que "as variáveis são inúmeras”, pois durante a fase da Covid-19 o país esteve fechado e verificou-se uma grande redução do que se importava porque Angola está localizada numa faixa de África que tem muitos países encravados, como a República do Congo, que absorve a maior parte do que se produz no país.

"Conseguimos constatar isso na altura do Covid-19 porque as nossas fronteiras estavam fechadas e não precisávamos de importar a quantidade que se importava no período anterior. Tivemos várias questões levantadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC), porque achavam que Angola estava a bloquear as importações. Com a abertura das fronteiras, continuamos a verificar o aumento das importações porque a RDC continua a demandar tanto os bens produzidos em Angola, quanto os importados”, concluiu.

Fonte: Jornal de Angola (22.02.23)

agroportal

O Portal do Agronegócio Angolano é uma plataforma polivalente que integra toda a Cadeia de Valor do Agronegócio.

Email:

info@agroportal.ao

Telf:

+244 935 415 252