A Associação Industrial de Angola (AIA) tem defendido publicamente o relançamento da cultura do algodão no país como meio de reduzir a dependência das importações de vestuário e gerar emprego. Nesta semana, o presidente da AIA, José Severino, afirmou que “Angola precisa voltar a produzir o algodão” e lamentou que hoje “todos nós vestimos… roupa importada”. Segundo Severino, a indústria têxtil angolana dispõe de três grandes unidades capazes de empregar cerca de 7.000 pessoas, mas que só terão produção se houver matérias‑primas locais. Esta proposta coincide com o Programa Governamental de Substituição de Importações aprovado em 2018, que visa estimular cadeias produtivas nacionais como alimentos, agroindústria, têxteis, vestuário e calçado. Empresários e associações sublinham a necessidade de rever a legislação de investimento e melhorar infraestruturas básicas (energia, água, estradas, financiamento) para apoiar sectores como o algodão e o vestuário. Em suma, a iniciativa da AIA enquadra-se numa política de industrialização por substituição de importações já seguida em África nas décadas de 1960-70, quando países buscavam autossuficiência, e que hoje volta a ser debatida como estratégia de desenvolvimento.
Infraestrutura agrícola e produção histórica de algodão
Historicamente, Angola foi um grande produtor de algodão, especialmente antes da independência. Em 1974 a colheita atingiu cerca de 150.000 fardos (cerca de 60.000 toneladas), mas depois da guerra civil a produção caiu a quase zero. Recentemente o Governo e entidade privadas têm reinvestido nessa cultura: por exemplo, em 2010 foi lançado um programa de 30 milhões de dólares, financiado pelo Japão, para cultivar algodão no Kwanza Sul (3.100 ha com irrigação) e expandir para várias províncias. Em 2013, Angola também contratou a empresa Sul‑Coreana, Hanil, para montar sistemas de irrigação em 5.000 hectares no Kwanza Sul, com financiamento de 31,4 milhões de dólares do EXIM Bank da Coreia. Esses investimentos mostram haver terra arável disponível (estima‑se 35 milhões de hectares, dos quais apenas 5% cultivados) e infraestrutura de irrigação reconstruída em algumas regiões.
No entanto, analistas do sector alertam que o potencial local não é ilimitado. O Director-executivo do Comité Internacional do Algodão (ICAC), Terry Townsend, observa que a Angola colonial produzia 30.000 toneladas por ano, mas nas últimas décadas ficou praticamente sem produção. Sobre o projecto de irrigação de 5.000 ha, Townsend estimou que só essa área produziria no máximo 5.000 toneladas de algodão (fardo) por ano. Ele destaca que a agricultura africana tem grande potencial produtivo, mas precisa de condições macroeconómicas estáveis, investimento em pesquisa, educação agrícola e logística (estradas, armazéns) para crescer sustentadamente. Em resumo, Angola possui recursos naturais (solo e água) para reviver o algodão, mas isso exigirá programas públicos-privados coordenados e apoio em infraestrutura rural.
Indústria têxtil e incentivos económicos
A cadeia têxtil nacional precisa ter matérias-primas locais. Actualmente a maioria das fábricas continua a trabalhar com algodão e fios importados. Segundo uma análise de 2014, mesmo com investimento japonês de USD 1 bilhão em três novos complexos têxteis, as unidades existentes só produziam com insumos estrangeiros. Por exemplo, a Textang II (fiação) marcou o arranque de exportações angolanas ao vender 44 toneladas de fio de algodão a Portugal em 2023, mas o algodão fiado era processado localmente graças a encomendas que criam mercado para a indústria.
Além de capital estrangeiro, empresários pedem incentivos fiscais e revisão das leis de investimento para estimular o sector. Em 2018, a AIA destacou que a legislação em vigor na época (Lei n.º 14/15, de 11 de Agosto) de investimento privado precisa de adaptação, pois, foi feita em tempos de petróleo a US$100/barril e não reflectia as limitações orçamentais do Estado já observadas na época. Os industriais reclamam também por tarifas competitivas, facilitação de importação de tecnologia e mecanismos de financiamento agrícola. As principais barreiras económicas incluem a falta de energia estável, água e estradas rurais, além de dificuldades de acesso a divisas e crédito barato. O sucesso da retomada do algodão em Angola dependerá, portanto, não só da fertilidade do solo, mas também de políticas públicas claras e incentivos económicos alinhados para toda a cadeia de valor (do campo à confecção).
Contexto global: estratégias de substituição e reindustrialização
A iniciativa angolana insere-se numa tendência mundial de repensar a substituição de importações e a soberania industrial. Em muitos países em desenvolvimento, políticas industriais têm buscado reduzir dependências externas criando mercados internos protegidos e integrados. Na África Subsariana, pesquisas mostram que mesmo sendo grandes produtores de algodão, os países africanos transformam uma fracção ínfima do produto internamente: em 2022 apenas 7% do fio de algodão, 6% do tecido e 9% do vestuário consumidos na região vinham de fornecedores locais. Para aproveitar melhor a matéria-prima, o continente tem promovido acordos como a Zona de Livre-Comércio Continental Africana, que visa estimular cadeias de valor intra-regionais.
Casos de sucesso parcial em países emergentes ilustram o conceito. No Benim, por exemplo, a Benin Textile Corporation montou uma unidade “verticalmente integrada” que fabrica vestuário para marcas internacionais usando algodão cultivado e fiação locais. No Bangladesh e Vietname (Asia), a indústria de vestuário cresceu com forte demanda de exportação, embora muitos desses países ainda importem algodão bruto de terceiros. No Brasil, a indústria têxtil também prosperou exportando roupas, mas sempre combinou algodão nacional com importações de fibras especiais. Na África do Sul, no passado, políticas proteccionistas visavam estimular a indústria local de vestuário (com resultados mistos). De forma geral, a literatura económica destaca que a reindustrialização bem-sucedida requer investimentos coordenados, formação técnica e integração regional.
Em síntese, a proposta da AIA de reiniciar o algodão em Angola faz parte de uma lógica global de busca de mais valor agregado local e resiliência económica. A experiência de outras nações sugere que a autossuficiência parcial em têxteis pode gerar empregos e economia, mas depende de uma ampla estratégia industrial. Em Angola, serão fundamentais os investimentos agrícolas, a modernização das fábricas têxteis e políticas de incentivo estáveis para transformar essa possibilidade numa realidade prática.
01 de Maio 2025


