Francisco Alegre Duarte, Embaixador de Portugal em Angola, foi distinguido como “diplomata económico do ano” pela Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP). O galardão – Prémio Francisco de Mello e Torres – foi entregue em 22 de Maio de 2025, durante a 4ª edição do Growth Forum – The Global Commerce Exchange, realizado na Nova SBE (School of Business and Economics), em Carcavelos. Na cerimónia, Duarte recebeu dos líderes da CCIP um cheque de 5 mil euros para atribuir a uma startup à sua escolha. Em discurso de aceitação, realçou que encara “este reconhecimento como uma motivação para fazer mais e melhor” em prol das empresas portuguesas e luso-angolanas.
No seu discurso, o embaixador recordou ter percorrido “milhares de quilómetros” em Angola a visitar empresas portuguesas e angolanas, testemunhando “casos de perseverança que são verdadeiramente heróicos”. Sublinhou a “densa interligação económica” que une Portugal e Angola, decorrente de afinidades culturais e históricas profundas. Enfatizou ainda que a parceria luso-angolana passou por 40 visitas de alto nível político nos últimos três anos, resultando em mais de 30 instrumentos jurídicos assinados – incluindo um Plano Estratégico de Cooperação 2023-2027 de 550 milhões de euros e o reforço da linha de crédito bilateral de 1,5 para 2,5 mil milhões de euros. Segundo Duarte, esses acordos traduzem-se numa relação de maturidade, igualdade e respeito mútuo entre os dois países.
Diplomacia económica e cooperação Lusófona
O percurso diplomático de Francisco Alegre Duarte confere-lhe grande experiência em economia internacional. Licenciado em Direito e com pós-graduação em Relações Internacionais, foi diplomata de carreira desde 1998, com passagem por Timor-Leste, Nações Unidas (Nova Iorque) e Itália antes de ser nomeado embaixador em Luanda em 2022. No consulado angolano, lidera a promoção da internacionalização das empresas portuguesas e a atracção de investimento. Em Luanda, tem incentivado estreitas parcerias público-privadas e o apoio da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal) para as empresas portuguesas, valorizando "o trabalho em equipa da embaixada" e o contributo dos funcionários locais.
O embaixador enfatizou o papel das comunidades imigradas como “sangue nas veias” da relação Luso-angolana. Estima-se que residam cerca de 130 mil cidadãos portugueses em Angola (60% deles com dupla nacionalidade) e cerca de 30 mil angolanos em Portugal. Esses laços humanos têm reforçado também as trocas comerciais e o investimento bilateral. Duarte apontou que as empresas portuguesas têm escolhido Angola para compensar ciclos económicos adversos na Europa, encontrando ali novos mercados, escala e formação de quadros que depois são úteis noutras geografias.
Dados económicos das relações Luso‑Angolanas
- Empresas: mais de 1.250 empresas portuguesas (puras ou de capital misto) operam actualmente em Angola e representam uma comunidade empresarial de dezenas de milhares de pessoas. Estas empresas estão presentes em todos os sectores angolanos relevantes (para além do petróleo e gás) e dão “um contributo crucial para o desenvolvimento de Angola”.
- Exportações (2024): as vendas portuguesas de bens para Angola rondaram €2,4 mil milhões em 2024, enquanto as exportações angolanas para Portugal foram cerca de €95,6 milhões. Estes dados reflectem o peso do comércio bilateral e a diversificação da base produtiva luso-angolana.
- Balança e ranking: em média, entre 2019 e 2023, as trocas de bens entre os dois países somaram cerca de €1 637,4 milhões por ano, com saldo positivo de €661,3 milhões para Portugal. No total de 2023, as exportações portuguesas a Angola atingiram €1,3 mil milhões (uma queda de 11,2% em relação a 2022). Até Setembro de 2024, registou-se uma nova descida abrupta de 23,4% nas exportações para Angola (ficando em €753,1 milhões). Apesar destas variações, Angola mantém-se o 5.º maior destino comercial de Portugal fora da UE (e o maior entre os PALOP). No total de bens e serviços de 2023, o comércio bilateral ultrapassou ligeiramente os valores pré-pandemia (cerca de €2,2 mil milhões, +6,2% face a 2019).
- Investimento e crédito: a relação financeira é suportada por linhas de financiamento e bancos. A linha de crédito portuguesa para Angola foi elevada de €1,5 mil milhões para €2,5 mil milhões nos últimos dois anos, destinada a apoiar exportações portuguesas e projectos de desenvolvimento angolano. No entanto, Duarte alertou para fragilidades, como a quase ausência de bancos portugueses de grande dimensão em Angola (fica-se pelo Caixa Geral de Angola). Sugeriu até considerar reforçar o capital do Caixa Angola ou dar papel ao Banco Português de Fomento para dinamizar o financiamento do sector empresarial português em Angola.
Growth Forum e CIP: plataforma estratégica em África
A distinção de Duarte insere-se num debate mais amplo sobre as oportunidades económicas em África para Portugal. O Growth Forum – organizado pela CCIP (agora CIP) – é a conferência empresarial anual mais importante da câmara, e em 2025 dedicou-se inteiramente ao continente africano. A organização descreve o encontro como “uma plataforma de excelência para a exploração de oportunidades económicas em África, promovendo o debate, a partilha de conhecimento e a criação de novas ligações estratégicas entre empresas portuguesas e mercados africanos”. O evento de 22 de Maio reuniu cerca de 400 gestores, empresários e representantes institucionais. Além de premiar embaixadores como Duarte, a CIP distinguiu também empresas portuguesas pelo seu envolvimento nos mercados africanos.
Segundo Nuno Magalhães, presidente da CIP, a escolha do Embaixador de Portugal em Angola como diplomata económico do ano “alinha-se perfeitamente” com o tema do fórum – ÁFRICA – dado o seu papel no aprofundamento das relações económicas bilaterais. De facto, nos últimos anos muitos responsáveis políticos e empresariais portugueses, incluindo o próprio governo português, têm considerado as relações com Angola e os PALOP como estratégicas para diversificar os mercados portugueses. O próprio Duarte lembrou que as relações luso-angolanas foram objecto de prioridade governamental contínua e multissectorial, desde a política externa até às áreas social e cultural.
Em suma, a homenagem a Francisco Alegre Duarte no Growth Forum salienta tanto o seu contributo pessoal — como chefe de missão diplomática empenhado na diplomacia económica — como a importância dos laços económicos e humanos entre Portugal e Angola. Os números compilados pela CIP, bem como as declarações dos protagonistas, confirmam que estes laços são fortes, complexos e com grande potencial de crescimento mútuo. O evento reforça ainda o papel da CIP como catalisador de parcerias empresariais luso-africanas, sublinhando o nosso país como plataforma estável e de oportunidades para as exportações e investimentos portugueses.
Fontes: Jornal Económico (SAPO), Forbes Portugal e Forbes África Lusófona (página de artigos), executivos da CCIP/CIP, RTP (Lusa), e o jornal O País.


