A iniciativa de Helt Araújo, chef angolano e empreendedor gastronómico, visa investigar e preservar o vasto património culinário de Angola. Criada em 2024, a Fundação Ovina Yetu nasceu do sonho de “resgatar produtos típicos, técnicas, tradições e saberes ancestrais” de todas as províncias angolanas. O projecto não é apenas um cadastro: a missão é dar visibilidade e valor aos ingredientes locais, muitos ainda desconhecidos, e tornar a gastronomia angolana mais inclusiva. Em entrevista, Araújo descreveu a fundação como “a nossa origem, a nossa identidade”, dedicando-se a contar a história de Angola pelo seu DNA gastronómico. O objectivo é criar uma “base de dados dedicada à rica e diversa história da gastronomia angolana” e disponibilizá-la ao público mundial, afirmando que muitos produtos locais, apesar do potencial nutritivo, permanecem fora do alcance de boa parte da população.
A Ovina Yetu é uma organização sem fins lucrativos apoiada por dez investigadores a tempo inteiro, que percorreram onze províncias (Luanda, Cunene, Moxico, Huíla, Huambo, Benguela, Malanje, Cuanza-Sul, Cabinda, Bié e Namibe) em busca de ingredientes e tradições culinárias. Essa equipa multidisciplinar identificou o potencial de centenas de produtos – desde proteicos exóticos e insectos comestíveis a ervas, frutos e pescados nativos – e compilou um catálogo de 3.000 a 3.500 itens alimentares locais. Segundo Araújo, estes dados serão divulgados no site da fundação, permitindo a qualquer interessado conhecer “o que estamos a falar e a trazer”.
O projecto vai além do levantamento etnogastronómico: visa reforçar a economia local e a educação alimentar. A fundação orienta-se para valorizar agricultores e pescadores sustentáveis, ao ensinar novas formas de cozinhar e utilizar produtos autóctones (locais). Para isso, divide-se em duas equipas de trabalho: uma centrada na gestão e organização da base de dados e outra no terreno, verificando se os dados de arquivo correspondem à realidade local. Em 2024 foram lançadas as primeiras exposições piloto do acervo culinário, e a meta é realizar anualmente cinco ou seis exposições itinerantes, onde a equipa de investigação e a equipa de campo validam o processo produtivo dos itens catalogados. Grande parte do acervo já mapeado combina pesquisa em literatura local e internacional, segundo o próprio criador.
Contexto global da Iniciativa
A iniciativa angolana surge em momento de valorização global da cultura alimentar. Em 2016, as Nações Unidas instituíram o Dia Mundial da Gastronomia Sustentável (18 de junho) para reconhecer a gastronomia como expressão cultural de diversidade. A UNESCO também destaca a comida como património imaterial: por exemplo, listou a Dieta Mediterrânica (2013), a culinária tradicional japonesa (Washoku), a cozinha tradicional mexicana, a refeição gastronómica francesa, o kimchi coreano e o cuscuz do Magrebe (Argélia, Marrocos, Tunísia, Mauritânia) como património cultural da humanidade. Hoje existem 49 “Cidades Criativas da Gastronomia” reconhecidas pela UNESCO, cada uma com estratégias inovadoras para promover a cultura alimentar local. Estes exemplos internacionais reforçam a importância de iniciativas como a Ovina Yetu, que alinham cultura, sustentabilidade e turismo. De resto, analistas de turismo apontam a “população acolhedora e uma gastronomia rica e variada” entre os principais atractivos de Angola, ao lado de praias e paisagens naturais. Com o inventário da Ovina Yetu e acções de divulgação, Angola potencia um novo fôlego para a sua cozinha tradicional e transforma herança em oportunidade.
Fontes: forbesafricalusofona.com, 4defevereiro.co.ao, unesco.org, cedesa.pt


