Moxico vai destacar o mel na 5ª edição da Feira dos Municípios e Cidades de Angola (FMCA 2025), de 7 a 10 de Agosto em Benguela, com foco em transformar uma produção familiar e informal de mais de 300 toneladas anuais numa cadeia formal, certificada e com acesso a mercados.
Ou seja: colmeias industriais, planta em Luena e aposta em cera e hidromel para abrir mercados.
Até 1974, Moxico foi referência em mel e cera; hoje existem projectos privados e cooperativos a tentar recuperar essa escala. A ambição é formalizar a produção local (+300 t/ano estimadas), reduzir perdas, certificar origem e transformar a presença na Feira dos Municípios em contractos de venda e exportação.
E importa ressaltar que segundo Bonifácio Bravante, director do Gabinete de Comunicação Social do Governo Provincial do Moxico, o mel do Moxico é “O melhor mel que existe a nível do mundo está comprovado cientificamente é do Moxico. Então, trouxemos o mel como o nosso cartão-postal”
Do passado ao plano
Moxico foi um dos pólos apícolas mais importantes de Angola até meados dos anos 70; a guerra civil levou ao colapso das fábricas de mel e de cera e à fragmentação da cadeia. Nos últimos anos, a produção angolana total aproxima-se de 23.460 toneladas (2023), mas a maioria fica no circuito informal e no consumo doméstico. As exportações são praticamente simbólicas.
A Feira dos Municípios surge como vitrina: expositores provinciais podem fechar parcerias, apresentar produtos varietais (Mel de origem floral única) e atrair compradores nacionais e estrangeiros. Moxico decidiu levar o mel como cartão postal, não somente para vender frascos, mas para vender a cadeia de valor.
Actores e metas no Moxico
Mel Luso do Moxico, criada em 2021, já vende cerca de 2 toneladas por mês (24 t/ano) e quer subir para 3 t/mês com a instalação inicial de 50 colmeias industriais; plano de longo prazo: 200 colmeias até ao fim do ano e 1.000 em cinco anos. A empresa plantou 1.000 árvores forrageiras para reduzir a sazonalidade.
A COAPA (Cooperativa Agropecuária, Pesca e Apicultura) trouxe um investimento de US$ 1,2 milhões para apoiar 200 apicultores nas regiões das Bundas, Luchazes, Moxico e Alto Zambeze, e prevê construir uma planta de processamento em Luena, passo considerado decisivo para reduzir custos de transporte e perdas pós-colheita.
Custo prático: cada colmeia industrial custa cerca de 55.000 Kz; as 50 primeiras implicam um investimento de 2.750.000 Kz.
O mel do Alto Zambeze é um produto natural de excelência, colhido de forma tradicional nas florestas desta região angolana. Produzido por abelhas que se alimentam de uma flora rica e diversificada, apresenta um sabor intenso, cor dourada e aroma floral característico. É valorizado pela sua pureza, qualidade e propriedades nutritivas, sendo um exemplo de produto endógeno com forte potencial para mercados gourmet e exportação.
Segundo o Diretor Provincial de Agricultura, Pecuária e Pescas do Moxico Leste, Laurindo Ladeira, “O nosso mel é extraído das florestas autóctones da região mais a leste do país, é um mel autêntico e com características organoléticas e medicinais notáveis. Sendo apreciado e concorrido em todo o país. O Moxico Leste pode afirmar-se como novo polo estratégico da apicultura em Angola.”
O que torna o mel angolano valioso
A flora local, Muvuca, Mucondo, Mussamba, confere perfis sensoriais e compostos bioactivos que justificam o posicionamento premium. Estudos apontam a elevada qualidade físico-química e actividade antioxidante em algumas amostras, o que abre portas para mercados de nicho e produtos “nutracêuticos”.
Além do mel, há “low-hanging fruits”: cera (uso cosmético e farmacêutico), hidromel (mercado em crescimento) e subprodutos como própolis e pólen. A diversificação, no entanto, aumenta a margem e reduz a dependência do volume bruto.
Obstáculos directos
Venda informal nas ruas, falta de embalagens e normas, perda pós-colheita e cadeia de frio frágil deprimem preços. Ameaças climáticas (secas, fogos), pragas e problemas de segurança, incluindo áreas minadas em zonas históricas, limitam expansão segura. Além disso, falta financiamento acessível para equipamento e tecnologia.
Tecnologia e mercado: o salto que falta
A tecnologia IoT para monitorização de colmeias e blockchain para rastreabilidade são estratégias destacadas no plano técnico. Essas tecnologias justificam selos de origem e certificações, requisitos para entrada em mercados exigentes e para preços premium. Mas a adopção depende de crédito, formação e infraestrutura digital.
Pessoas por detrás do plano
“Queremos pagar salários, não só vender mel na rua”, resume o director da Mel Luso, sintetizando a ambição de profissionalizar a actividade. A COAPA acrescenta: “A planta no Luena muda o jogo: menos perdas, mais valor local.” No terreno, apicultoras dizem que formação e acesso a mercados transformam vidas e papéis sociais.
O que precisa acontecer
Transformar a exibição na Feira dos Municípios em contractos exige três passos claros:
1) Concluir a infraestrutura de processamento no Luena;
2) Financiar colmeias e equipamento para pequenos produtores;
3) Certificar e rastrear o mel (qualidade e origem).
Com estes elementos, Moxico pode converter produção familiar em produto de valor e alterar a contradição: grande produção, exportações quase nulas.
Esta evento é também, por si só, um apelo a AIPEX, Governo Provincial e parceiros técnicos devem articular linhas de crédito, programas de formação e aceleração de certificação para que a presença em feiras se transforme em negócios reais, e não apenas em exposição.
08 de Agosto de 2025


