O agricultor Nelson Mário Marcos Rodrigues estabeleceu uma meta ambiciosa para o médio prazo: cultivar mil hectares de feijão e mil hectares de milho num horizonte de dois anos, reforçando a oferta nacional de dois alimentos estratégicos para a segurança alimentar do país.
A declaração foi feita numa entrevista ao Jornal OPaís, onde o produtor, com 20 anos de experiência no sector, sublinhou que a expansão visa “inundar o mercado com produção nacional”, reduzindo a dependência de importações e estabilizando preços.
Produção em Escala no Vale do Dombe-Grande
Instalado no vale do Dombe-Grande, província de Benguela, Nelson Rodrigues é actualmente um dos produtores de referência da região centro-sul. Depois de iniciar a actividade agrícola com pequenas parcelas de um a dois hectares, o produtor gere hoje uma área organizada próxima dos 400 hectares, apoiada por meios mecanizados próprios, incluindo tractores e equipamentos agrícolas.
O percurso começou com batata-rena, passando depois por tomate, cebola, pepino e feijão, até consolidar o feijão como uma das principais apostas comerciais.
Meta Alinhada com o Desafio Nacional
A ambição do produtor surge num contexto em que Angola ainda não cobre integralmente a procura interna de milho e feijão. Dados internacionais indicam que o país dispõe de mais de 57 milhões de hectares com potencial agrícola, mas apenas uma fracção é efectivamente explorada.
O milho é hoje um dos cereais mais consumidos no país e a produção nacional ronda 2,7 milhões de toneladas anuais, segundo estimativas recentes. Já o feijão, alimento base da dieta angolana, continua com grande margem de crescimento, apesar de produções significativas em regiões como o Dombe-Grande, onde campanhas recentes ultrapassaram 14 mil toneladas.
Mercado, Risco e Persistência
Nelson Rodrigues reconhece que o caminho não foi linear. A concorrência de produtos importados, como a batata-rena proveniente da Namíbia, afectou preços e levou a períodos de forte pressão financeira. Ainda assim, afirma que o compromisso com a agricultura falou mais alto do que as dificuldades.
“Houve anos em que pensei desistir, mas a agricultura é o que sei fazer e é onde acredito que Angola pode ganhar”, afirmou.
Apelo ao Financiamento e à Indústria
Para que metas desta dimensão se tornem viáveis, o agricultor defende um maior envolvimento do Estado e da banca comercial, não apenas na produção, mas também na indústria transformadora. Segundo Nelson Rodrigues, a ausência de crédito ajustado à realidade agrícola continua a limitar a escala e a produtividade de muitos produtores nacionais.
Visão de Longo Prazo
A meta dos 2.000 hectares combinados posiciona Nelson Rodrigues como um caso emblemático da agricultura empresarial angolana em transição, que procura sair da lógica de subsistência para um modelo de produção em escala, orientado para o mercado interno e, a médio prazo, para a agro-indústria.
- Jornal OPaís — Entrevista: “Dentro de dois anos, temos de fazer mil hectares de feijão e mil hectares de milho”
- Jornal OPaís — Produção agrícola no Dombe-Grande
- FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura
- Akademiya2063 — Dados de produção de milho em Angola
- International Trade Administration (trade.gov) — Potencial agrícola de Angola
18 de Dezembro. 2025


