Angola precisa triplicar a produção nacional de milho para alcançar segurança alimentar absoluta, criar reservas estratégicas e reduzir a dependência das importações. A afirmação foi feita pelo Ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, durante a abertura de um encontro com industriais e produtores de milho, realizado na Zona Económica Especial Luanda-Bengo (ZEE).
O governante explicou que a meta do Executivo ultrapassa o simples aumento da produção agrícola. O objectivo é garantir que o consumo interno seja sustentado por cadeias produtivas nacionais, capazes de alimentar a população e fornecer matéria-prima à indústria transformadora.
Produção cresce, mas ainda não cobre a procura nacional
De acordo com dados apresentados no encontro, a campanha agrícola 2024-2025 registou resultados considerados positivos. Angola produziu mais de 3,6 milhões de toneladas de milho, consolidando o cereal como o principal produto da agricultura nacional.
No mesmo período, a produção agrícola total do país atingiu 30,5 milhões de toneladas, um crescimento de cerca de 8,5% face ao ciclo anterior.
Apesar do desempenho, a produção interna continua insuficiente para satisfazer a procura nacional.
Importações de milho custaram 123 milhões de dólares
Para cobrir o défice entre oferta e consumo, Angola teve de importar cerca de 350 mil toneladas de milho, o equivalente a 123 milhões de dólares.
Esta dependência externa tem impacto directo na economia, sobretudo devido à saída de divisas e à volatilidade cambial que influencia os preços internos.
Actualmente, cerca de 70% da matéria-prima utilizada pelas indústrias moageiras ainda é importada, enquanto apenas 30% é adquirida no mercado nacional.
Falha na ligação entre produtores e indústria
Segundo José de Lima Massano, uma das principais dificuldades está na fraca articulação entre produtores agrícolas e indústria transformadora.
Em muitos casos, o milho produzido no interior do país não chega às fábricas com regularidade ou qualidade exigida, que obriga o Governo a autorizar importações para evitar a paralisação industrial.
“Quem produz precisa de garantia de acesso ao mercado. Quem transforma precisa de segurança de abastecimento”, afirmou o responsável pela coordenação económica do Executivo.
Procura cresce com alimentação humana e pecuária
O milho ocupa uma posição estratégica na economia alimentar angolana.
O cereal é base da dieta nacional, consumido principalmente na forma de fuba de milho, mas também representa entre 60% e 70% da composição das rações animais.
Com o crescimento do sector pecuário, a procura por milho tem aumentado significativamente, criando uma pressão simultânea entre consumo humano e produção de proteína animal.
Chuvas abaixo do normal ameaçam crescimento
O governante alertou ainda para o impacto das condições climáticas adversas na campanha agrícola actual.
Segundo dados oficiais, a precipitação registada este ano foi inferior à da campanha anterior, o que pode comprometer o crescimento esperado da produção.
A agricultura angolana continua altamente dependente do regime de chuvas, o que aumenta a vulnerabilidade do sector agrícola a fenómenos climáticos.
Irrigação continua a ser o grande desafio
Outro obstáculo estrutural é o défice de sistemas de irrigação.
Actualmente, apenas entre 2% e 4% das áreas cultivadas em Angola possuem regadio, enquanto cerca de 96% da produção depende exclusivamente da chuva.
Além disso, a estrutura produtiva continua marcada por baixos níveis de mecanização:
- 66% da actividade agrícola é manual
- 28% utiliza tração animal
- apenas 6% é mecanizada
Para o Executivo, a expansão da irrigação é considerada fundamental para estabilizar a produção agrícola e reduzir os riscos climáticos.
PlanaGrão quer impulsionar produção nacional
Para enfrentar estes desafios, o Governo lançou o PlanaGrão — Plano Nacional de Fomento para a Produção de Grãos, uma estratégia que visa aumentar a produção de cereais como milho, trigo, arroz e soja.
O plano prevê a expansão da agricultura em novas fronteiras agrícolas, sobretudo no Leste de Angola, incluindo as províncias de Moxico, Lunda Norte, Lunda Sul e Cuando Cubango.
A meta é elevar a produção nacional de grãos para mais de seis milhões de toneladas anuais nos próximos anos e aproximar o país da autossuficiência alimentar.
Milho no centro da segurança alimentar
Com cerca de 3,2 milhões de famílias envolvidas na produção agrícola, o milho assume um papel central na economia rural e na segurança alimentar do nosso país.
Para o Executivo, triplicar a produção nacional será decisivo para:
- reduzir a dependência de importações;
- estabilizar os preços dos alimentos;
- garantir abastecimento à indústria;
- impulsionar o desenvolvimento agrícola.
Sem essa transformação estrutural, alertam as autoridades, Angola continuará exposta às oscilações do mercado internacional e às pressões sobre a sua balança alimentar.
16 de Março de 2026


