Produtora do Moxico foi distinguida pela FAO entre mais de 600 nomeações de 131 países, num reconhecimento internacional que coloca a mulher rural angolana no centro da transformação dos sistemas agroalimentares.
Teresa de Castro Vieira Mariz, responsável pela Fazenda T. Mariz, no Moxico, e conhecida em Angola como a “Rainha da Mandioca”, foi selecionada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como uma das 100 Mulheres Heroínas nos Sistemas Agroalimentares e Desenvolvimento Rural.
O reconhecimento internacional ganha particular significado por resultar de um processo global que recebeu mais de 600 nomeações provenientes de 131 países, distinguindo mulheres que, através da agricultura e do desenvolvimento rural, estão a produzir impacto nas suas comunidades e a contribuir para sistemas agroalimentares mais sustentáveis e inclusivos.
A cerimónia especial de entrega dos prémios decorrerá na sede da FAO, em Roma, de 12 a 16 de outubro de 2026, no âmbito do Fórum Mundial da Alimentação.
Da banca para o campo
A história de Teresa Mariz representa também uma mudança de percurso profissional que ilustra o potencial do empreendedorismo agrícola em Angola.
Antigo quadro do sector bancário, Teresa decidiu abraçar o agronegócio e encontrou na produção de mandioca o caminho para construir um projeto agrícola de referência no Leste do país.
Na Fazenda T. Mariz, alcançou produtividades na ordem das 30 a 40 toneladas de mandioca por hectare, demonstrando que a agricultura pode ser encarada não apenas como atividade de subsistência, mas como negócio, profissão e oportunidade de desenvolvimento económico.
Mais do que os números da produção, o percurso de Teresa Mariz evidencia uma dimensão frequentemente menos visível do desenvolvimento agrícola: o papel das mulheres que produzem, lideram explorações, geram emprego, dinamizam comunidades e criam valor a partir do território rural.
É precisamente essa dimensão que o reconhecimento da FAO procura colocar em evidência.
A mulher rural está a mudar o agro
Durante demasiado tempo, a mulher rural foi apresentada sobretudo como alguém que precisava de apoio. Hoje, a realidade mostra uma imagem diferente.
Em Angola, milhares de mulheres estão diariamente envolvidas na produção agrícola, na transformação de alimentos, na comercialização, na gestão das explorações e na criação de pequenos negócios. Muitas são, simultaneamente, agricultoras, gestoras, comerciantes, cuidadoras e agentes de desenvolvimento das suas comunidades.
O desafio passa agora por transformar esse enorme contributo económico e social em oportunidades concretas de crescimento.
Capacitação, acesso a financiamento, tecnologia, organização, certificação, criação de marcas, acesso aos mercados e internacionalização são algumas das ferramentas que podem permitir que mais mulheres passem de uma agricultura de sobrevivência para uma agricultura capaz de gerar rendimento, emprego e empresas sustentáveis.
AgroMulher.ao: quando a mulher camponesa passa a ser empreendedora
É neste contexto que ganha relevância o AgroMulher.ao, programa dedicado à valorização e capacitação da mulher no sector agroalimentar angolano.
A iniciativa parte de uma ideia simples, mas estratégica: não basta reconhecer a importância da mulher rural — é preciso criar condições para que ela possa transformar o que produz em valor económico.
O AgroMulher.ao pretende contribuir para essa transformação, aproximando mulheres camponesas e produtoras de ferramentas de empreendedorismo, gestão, valorização dos produtos, construção de marcas e acesso a mercados.
A ambição é ajudar a construir uma nova geração de mulheres rurais: produtoras que também são empresárias, gestoras, criadoras de marcas e protagonistas das cadeias de valor agroalimentares.
O reconhecimento atribuído a Teresa Mariz pela FAO mostra que esse potencial já existe.
Um exemplo que ultrapassa a mandioca
A distinção da “Rainha da Mandioca” é, por isso, maior do que a história de uma produtora e de uma cultura agrícola.
É o reconhecimento de uma mulher que encontrou na agricultura uma oportunidade para criar valor e que, através do seu percurso, ajuda a contrariar a ideia de que o futuro do agroangolano se constrói apenas através de grandes investimentos ou grandes empresas.
Constrói-se também no campo, através de pessoas que conhecem a terra, assumem riscos, investem, inovam e acreditam que produzir alimentos pode ser uma atividade económica capaz de transformar vidas.
Teresa Mariz junta-se assim a um grupo internacional de mulheres cujas histórias representam diferentes realidades dos sistemas agroalimentares, mas que têm em comum a capacidade de gerar mudança nas suas comunidades.
Para Angola, a sua escolha é também uma oportunidade para olhar com outros olhos para milhares de mulheres que todos os dias trabalham no campo.
Porque reconhecer a mulher rural é importante. Mas criar condições para que ela cresça, empreenda e lidere é ainda mais importante.
11 de Setembro 2026


